Itens recém-doados pelas filhas do professor emérito Israel Vargas têm potencial multidisciplinar de pesquisa. Após catalogação, serão disponibilizados para consulta mediante agendamento

“As obras que doamos recentemente para o Acervo José Israel Vargas, da Universidade Federal de Minas Gerais, refletem parte da riqueza intelectual e da trajetória singular deste homem à frente do seu tempo, que viveu, ao lado da esposa Aristela Domingues Vargas, uma vida excepcionalmente rica e diversa”, ressalta Joana Vargas, uma das filhas do pesquisador Israel Vargas, falecido em maio do ano passado, aos 97 anos.
Catedrático de físico-química e química superior da Universidade Federal de Minas Gerais, instituição que em 1989 conferiu-lhe o título de professor emérito, José Israel Vargas foi também ministro da Ciência e Tecnologia de 1992 a 1999, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) de 1991 a 1993 e da Academia Mundial de Ciências (TWAS) por dois mandatos.
Nos anos 2000, o pesquisador doou parte de seus livros – cerca de oitenta – para a Biblioteca Universitária da UFMG, que, desde então, abriga e disponibiliza o acervo para consulta local na Divisão de Coleções Especiais e Obras Raras da UFMG (Dicolesp), recém-transferida para o primeiro andar da Biblioteca da Faculdade de Ciências Econômicas.
Em abril deste ano, as filhas de Israel Vargas – Maria, Joana e Cláudia – selecionaram e doaram cerca de dois mil e quinhentos itens para a coleção já existente. “A relação com nosso pai sempre foi muito ligada aos livros e às conversas que eles traziam, por isso os itens doados têm imenso valor sentimental para nós. Nos últimos anos, passamos muito tempo juntos revisitando várias obras de que ele gostava. Doar parte desse acervo está sendo doloroso, mas também libertador”, conta Maria Vargas.
“Papai orgulhava-se da sua alma mater. Participou dos esforços que a tornaram uma universidade de excelência, através da sua liderança, competência científica e do exercício do magistério – atividade à qual se dedicou até o fim da vida. A UFMG foi parte indissociável de sua trajetória, razão pela qual muito nos honra que esta instituição tenha aceitado receber sua biblioteca, disponibilizando-a para consulta e deleite”, acrescenta Claudia Vargas.
‘Trajetória política e intelectual marcada nas estantes’

Além dos muitos livros técnicos de física, físico-química e química nuclear – que representam a literatura mais avançada e atualizada da época – o Acervo José Israel Vargas recebeu também obras de filosofia, economia, clássicos da literatura brasileira e mundial, livros sobre crítica literária escritos por Antônio Candido – de quem Israel Vargas era leitor e amigo -, obras teatrais – sobretudo de Shakespeare – , poesia, música e biografias, em português, inglês e francês.
“A trajetória política e intelectual do nosso pai também ficou marcada nas estantes. Ele chegou a simpatizar com o comunismo na juventude, mas já tinha se afastado dessas ideias na época da invasão da Hungria, em 1956. Depois disso, passou décadas lendo a literatura de dissidentes políticos — como Solzhenitsyn, Pasternak e Bulgákov—, que aparecem bastante no acervo, junto de livros sobre espionagem na época da Guerra Fria, além dos grandes clássicos russos que ele tanto admirava. Era uma biblioteca bem eclética, que ele revisitava e atualizava o tempo todo, indo a livrarias ou, nos últimos anos, pela internet”, destaca Maria Vargas.

Em uma nova triagem, as filhas de Israel Vargas descobriram volumes e obras raras que foram também doados para o acervo da UFMG neste mês de setembro, dentre os quais uma coleção em quatro volumes de ‘The Works of Francis Bacon’, publicada em Londres em 1740, uma edição de 1951 dos ‘Sermões do Padre António Vieira’ e o livro ‘Hiléia Amazônica’, publicado em 1944 por Gastão Cruls.
“Vários livros da minha própria estante tinham vindo da coleção dele e resolvi incluí-los na doação: são livros técnicos que nosso pai tinha adquirido durante sua formação científica e que ganhei ao longo dos anos, com dedicatórias carinhosas onde ele me tratava como colega de profissão; livros de história e filosofia da ciência, que usei em minhas aulas por indicação dele, e clássicos da literatura que eram dele por empréstimo. A coleção ‘The Works of Francis Bacon’ ele me deu de presente quando voltou de Paris, depois do período como embaixador na Unesco. Lembro da nossa alegria folheando juntos as páginas da obra deste que foi um dos criadores do método científico”, recorda Maria.
Além dos livros, foram também doados objetos pessoais de Israel Vargas, como o diploma de doutorado emoldurado, algumas fotografias e quadros da época em que atuava no Ministério da Ciência e Tecnologia – que ilustram o lançamento do satélite CBERS-1 pelo Programa China-Brazil Earth Resources Satellite em 1999 – , uma maquete de reator e o troféu do Prêmio Destaques em Governança da Internet no Brasil em 2020.
Já o acervo documental do pesquisador foi transferido para o Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST, uma das principais instituições de salvaguarda da memória científica brasileira, onde receberá tratamento e será disponibilizado eletronicamente na plataforma Zenith.
Potencial multidisciplinar de pesquisa
As bibliotecárias Sabrina Fonseca e Magna dos Santos, da Divisão de Coleções Especiais e Obras Raras (Dicolesp), estão finalizando o inventário das obras recebidas em abril deste ano e farão o inventário das que foram doadas neste mês de setembro. Posteriormente, todos esses itens serão catalogados e disponibilizados para consulta mediante agendamento pelo e-mail colesp@bu.ufmg.br ou pelo telefone (31)3409-4615.
“Identificamos livros em diversas áreas do conhecimento, o que mostra o potencial multidisciplinar de pesquisa dos materiais do acervo. Encontramos várias obras especiais, como as de Shakespeare, editadas em Londres entre 1922 e 1926, além da edição fac-símile do manuscrito de 1912 de Albert Einstein sobre a Teoria da Relatividade Restrita. Outra obra que se destaca é ‘Pantanal’, lançada em 1987 em grande formato e com capa revestida em veludo. O livro apresenta belas fotografias coloridas das paisagens, fauna e flora da região”, destaca a bibliotecária Sabrina Fonseca.
Legado político e científico

Nascido em 1928, em Paracatu (MG), José Israel Vargas foi químico, pesquisador e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Formado em Química pela UFMG, doutorou-se em Ciências Nucleares pela Universidade de Cambridge e teve importante atuação na pesquisa e na formulação de políticas de ciência e tecnologia no Brasil.
Após o golpe militar de 1964, foi afastado da UFMG e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e viveu, com a família, seis anos em autoexílio na França, onde continuou suas pesquisas. De volta ao Brasil, ocupou cargos de destaque, como secretário de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais e ministro da Ciência e Tecnologia, além de presidir importantes academias científicas.
Também teve atuação internacional como embaixador do Brasil na Unesco e defendeu a educação e a cooperação científica. Entre as iniciativas do pesquisador, destacou-se a criação de bolsas para estudantes africanos de países de língua portuguesa. A ideia materializou-se no programa Paula Domingues Vargas, nomeado em homenagem à filha Paula, que faleceu em 1981, quando era estudante de música da UFMG.
Reconhecido com diversas condecorações, José Israel Vargas deixou um legado marcado pela defesa da ciência, da educação pública e do desenvolvimento científico e tecnológico do país. O pesquisador está entre os homenageados da exposição ‘UFMG Centenária: um século em pessoas’, inaugurada neste mês de setembro no saguão da reitoria.
(Texto de Carla Pedrosa, jornalista da Biblioteca Universitária, com informações do obituário publicado no Portal da UFMG e assinado pelo jornalista Itamar Rigueira Jr.)










