

O fascínio do arquivo! Todo pesquisador que já entrou em um conhece a sensação. Apesar disso, a pesquisa jurídica no Brasil (e talvez não só) se interessa pouco por documentos de arquivo. O vínculo da pesquisa jurídica com o direito vigente é uma razão plausível para o desinteresse, embora enxergar o presente adicionando camadas de tempo enriqueceria a compreensão da atualidade. E a historiografia jurídica, a grande especialista em escavar essas camadas de tempos idos? A pungente historiografia jurídica brasileira já desbravou muito bem alguns desses meandros, mas tendo em vista tudo o que ainda existe a explorar, os avanços podem ser considerados tímidos.
A historiografia elaborada por não-juristas, por sua vez, conta com uma tradição muito mais longeva no trato com arquivos. Quase sempre quando pensamos em arquivos pensamos em arquivos institucionais: arquivos judiciários, arquivos de órgãos do Estado, arquivos eclesiásticos etc. Isso significa que é quase impossível explorar esses arquivos sem tropeçar no direito: eles documentam a aplicação (ou a violação) de normas jurídicas, a produção (ou tentativa de produção) de normas jurídicas, isso sem contar as normas jurídicas em si (leis, contratos, decisões judiciais etc.). Daí as dificuldades da historiografia não-jurídica: embora muito experiente na lida com documentação arquivística, ainda são comuns as falhas na interpretação da desafiadoramente opaca linguagem do direito. Por isso nós vislumbramos um papel central para a historiografia jurídica: por um lado, ela é capaz de aproximar o Direito dos arquivos; por outro lado, ela é capaz de aproximar a História dessa que é a linguagem de uma parcela enorme dos documentos arquivísticos.
Para além de tais aproximações com valor teórico, a historiografia jurídica brasileira certamente abrirá sendas novas na pesquisa historiográfica ao explorar mais os arquivos. Obviamente, certas pesquisas arquivísticas também podem dar sinais de exaustão: é o que acontece quando determinado tema é reiteradamente explorado de maneira igual ou muito semelhante com documentos de arquivo diferentes – os avanços historiográficos aqui são muito pequenos e costumam ter muito mais um valor didático, ou seja, de aprendizado para um estudante de graduação ou de mestrado sobre como lidar com documentação arquivística. Porém, não é esse o cenário da historiografia jurídica brasileira atual e nem do futuro próximo. Mesmo fontes já muito exploradas pela historiografia – os livros de Teixeira de Freitas, por exemplo – podem ganhar novos contornos quando friccionadas inteligentemente com documentação de arquivo.
Por isso, o Studium Iuris decidiu propor a relação entre história do direito e arquivos como tema do 23º módulo do seu tradicional grupo de estudos, que, pela primeira vez será ofertado também como disciplina optativa para os estudantes de graduação que preferirem essa modalidade de inscrição.










